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Por: Jorge Torrez
Redator 4mãos
Ter um carro na garagem passa uma sensação curiosa. Depois que a parcela termina, muita gente olha para o veículo quitado e pensa que o gasto ficou restrito a combustível, IPVA e alguma revisão de vez em quando. Na prática, a conta é bem mais espalhada.
O problema é justamente esse. Alguns custos aparecem todo mês, outros chegam uma vez por ano e há aqueles que só dão as caras depois de 20 mil, 30 mil ou 40 mil quilômetros. Quando tudo é colocado na mesma conta, fica mais fácil entender quanto o carro realmente consome do orçamento familiar.
Não existe um valor mensal que sirva para todo motorista. Um carro compacto usado somente para trajetos curtos tem um custo muito diferente de um SUV financiado que roda 2 mil quilômetros por mês. Ainda assim, é possível chegar a uma estimativa bastante próxima da realidade usando os próprios números.
Combustível costuma ser a primeira despesa lembrada porque é a mais visível. O motorista vê o valor no posto e sente imediatamente a diferença quando gasolina ou etanol sobem.
A maneira mais útil de calcular esse gasto não é usar uma média nacional. É observar quantos quilômetros o carro realmente percorre por mês, qual é o consumo médio no uso cotidiano e quanto o combustível custa na região.
A conta é simples. Se um automóvel percorre 1.000 quilômetros por mês, faz em média 10 quilômetros por litro e o litro utilizado custa R$ 6, o gasto aproximado será de R$ 600 naquele mês.
É apenas um exemplo. Quem roda pouco pode gastar uma fração disso, enquanto quem trabalha com o veículo pode superar esse valor com facilidade.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP, publica levantamentos periódicos de preços em diferentes cidades. Isso é mais útil para uma estimativa pessoal do que assumir um preço médio que talvez não tenha qualquer relação com o posto onde o motorista abastece.
IPVA não é uma surpresa. A cobrança acontece todos os anos. Mesmo assim, é comum tratar o imposto como um problema exclusivo de janeiro ou do período de vencimento.
Uma forma mais realista de enxergar o custo do carro é transformar despesas anuais previsíveis em valores mensais.
Imagine que IPVA, licenciamento e outras taxas relacionadas ao veículo somem R$ 3.600 ao longo do ano. Financeiramente, isso representa R$ 300 por mês.
O dinheiro não precisa necessariamente ser gasto mensalmente, mas o custo existe. Reservar esse valor aos poucos também evita aquela sensação de que o começo do ano trouxe uma despesa inesperada.
A mesma lógica vale para qualquer despesa previsível que ocorre em intervalos maiores.
Esperar o carro apresentar um defeito para começar a pensar em manutenção costuma sair caro.
Óleo, filtros, fluido de freio, pastilhas, pneus, correias e outros componentes têm vida útil. O momento da troca depende do veículo, da quilometragem, das condições de uso e das orientações do fabricante.
Quem dirige principalmente no trânsito urbano, por exemplo, pode submeter determinados componentes a um tipo de esforço bastante diferente de quem passa boa parte do tempo em rodovia.
Por isso, o manual do proprietário é uma referência muito melhor do que regras genéricas encontradas na internet.
Também faz sentido criar uma reserva mensal para manutenção. Se o motorista sabe que, ao longo de um ano, provavelmente gastará R$ 2.400 entre revisões, pequenos reparos e itens de desgaste, pode considerar cerca de R$ 200 mensais na conta do automóvel.
Isso não significa que a oficina cobrará R$ 200 todos os meses. Significa apenas que o custo está sendo distribuído de maneira mais honesta.
O pneu é um bom exemplo de gasto que costuma desaparecer das contas mensais.
Um jogo pode durar bastante tempo, dependendo do modelo, do tipo de condução, da calibragem, do alinhamento, das condições das vias e da quilometragem rodada. Quando chega a hora da troca, porém, o valor costuma ser significativo.
Suponha, apenas para facilitar a conta, que quatro pneus custem R$ 2.400 e sejam utilizados por aproximadamente dois anos. Sem considerar variações de desgaste ou preço, isso representa cerca de R$ 100 mensais.
É uma despesa que o motorista não vê no extrato todos os meses, mas que faz parte do custo de rodar.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado à bateria e a outros componentes de substituição periódica.
O seguro é outro gasto que muda bastante de uma pessoa para outra. O preço pode variar conforme características do carro, localização, perfil de utilização, condutores informados e coberturas contratadas.
Por isso, dizer que determinado modelo “custa tanto para segurar” sem considerar o perfil de quem dirige tem pouca utilidade.
Na hora da pesquisa, comparar propostas é importante. No mercado brasileiro, serviços como o Compare Em Casa podem fazer parte dessa etapa de consulta. O cuidado está em não olhar somente para o menor preço exibido.
Duas propostas com valores diferentes podem oferecer franquias, limites para danos a terceiros, assistência, carro reserva e outras condições igualmente diferentes. A Superintendência de Seguros Privados, a Susep, orienta o consumidor a observar as condições da apólice e aquilo que efetivamente está sendo contratado.
A lógica de comparar condições também existe em outros mercados. Na Argentina, por exemplo, o Compara en Casa reúne opções para quem está pesquisando seguro no país. A comparação continua exigindo atenção às coberturas e às condições oferecidas, não apenas ao número que aparece primeiro na cotação.
Para colocar o seguro na conta mensal do carro, basta dividir seu custo anual por 12. Um seguro de R$ 3.600 por ano, por exemplo, representa um custo médio de R$ 300 mensais.
Talvez esse seja o custo mais esquecido de todos.
Um motorista compra um carro por R$ 90 mil, permanece alguns anos com ele e depois vende por R$ 65 mil. Durante esse período, parte do patrimônio desapareceu na forma de depreciação, mesmo que nenhum boleto com a palavra “depreciação” tenha chegado à sua casa.
A Tabela Fipe pode servir como uma referência para acompanhar preços médios de mercado, mas a própria Fipe ressalta que seus valores são parâmetros. Estado de conservação, região, acessórios e outras características podem fazer o preço de negociação ser diferente.
Para quem quer entender o verdadeiro custo de possuir um automóvel, ignorar completamente a desvalorização pode distorcer bastante a conta.
É especialmente importante quando se compara manter um carro atual, trocar por outro ou vender o veículo e utilizar outras formas de transporte.
Quando o automóvel é financiado, não basta considerar a parcela como se todo aquele dinheiro estivesse pagando pelo bem.
Há juros e outros custos financeiros envolvidos na operação. Dependendo das condições do contrato e do prazo escolhido, a diferença entre o preço à vista e o total efetivamente pago pode ser relevante.
Para o orçamento doméstico, a parcela certamente precisa aparecer como saída mensal. Já para uma análise mais detalhada do custo de propriedade, vale separar quanto corresponde ao veículo e quanto decorre do financiamento.
Isso ajuda inclusive na hora de decidir se faz sentido antecipar parcelas, trocar de carro ou continuar com o mesmo automóvel depois da quitação.
Pequenos gastos são fáceis de ignorar porque aparecem de forma fragmentada.
R$ 20 de estacionamento aqui, uma lavagem ali, algumas passagens por pedágio e serviços ocasionais podem parecer irrelevantes individualmente. Somados durante um ano, podem representar uma quantia considerável.
Quem utiliza aplicativos de estacionamento ou tags de pedágio pode consultar o histórico dos últimos meses e chegar a uma média bastante realista.
O objetivo não é transformar cada saída de carro em uma planilha complicada. É apenas não deixar uma parte significativa dos gastos fora da conta.
Uma conta simples pode mudar bastante a percepção.
Imagine um motorista que gaste mensalmente R$ 600 com combustível, R$ 300 com a provisão para IPVA e licenciamento, R$ 200 para manutenção, R$ 100 destinados à futura troca de pneus, R$ 300 referentes ao seguro e mais R$ 150 entre estacionamento, lavagem e outras despesas.
Só esses itens já chegariam a R$ 1.650 por mês.
Ainda poderiam faltar financiamento e depreciação.
O exemplo não pretende dizer que todo carro custa isso. Pelo contrário. A grande vantagem desse cálculo é mostrar por que médias prontas raramente respondem à pergunta certa.
O motorista que roda 300 quilômetros por mês terá uma realidade. Quem percorre 3 mil terá outra. Um automóvel de dez anos apresenta custos diferentes de um zero-quilômetro, assim como um carro quitado não deve ser comparado diretamente com outro que ainda possui dezenas de parcelas.
A conta mais útil é aquela feita com os quilômetros, os boletos, o histórico de manutenção e os hábitos de quem realmente usa o veículo.
Quando esses números passam a ser observados juntos, aquela despesa grande que parecia surgir “do nada” na troca dos pneus, na renovação do seguro ou no pagamento do IPVA deixa de ser tão inesperada. Ela já fazia parte do custo do carro. Só estava escondida entre um mês e outro.
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